terça-feira, 29 de julho de 2014

Conversa tola


            Numa vila ordinária, afastada da civilização urbana, um cachorro se espreguiça embaixo de uma bananeira. Enquanto boceja, olha as mulheres em suas casas, estendendo as roupas no varal ou fazendo qualquer coisa menos importante.
            Um burro se aproxima, cumprimenta o cachorro e os dois observam o vilarejo juntos. Um homem passa ao longe, com velocidade de tartaruga, olhando para o céu.
O burro logo diz:
"Engraçado, hoje de manhã brigaram comigo porque eu não queria sair do lugar e quando comecei a andar, ralharam porque estava devagar demais. Mas olha aquele homem ali. Está mais devagar do que eu pela manhã e ninguém briga com ele".
            O cachorro respirou fundo e respondeu ao burro:
"É assim mesmo burro. Veja bem, eu sempre sou chamado de vida boa porque não faço nada o dia inteiro. Mas nossos humanos não são diferentes de nós. Homens-do-mato eles são. Também são bichos e não fazem nada da vida. Estou sentado aqui a manhã inteira e nada aconteceu".
            O burro então percebe que estão sendo vigiados:
"Olha lá. Estão olhando para a gente pelas janelas".
O cachorro logo responde:
"Olhando o quê? Não há nada para se olhar nesse 'lugarejo'. Posso garantir que nada vai acontecer. A vida é lerda por aqui."


Jairo Goetz

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Vício


            Na escola ficava te olhando, te admirava e te amava todos os dias, porém que dentro do meu pequeno mundo. Não sei se isso era certo, mas só isso já era o suficiente para mim. Como dizia a música do grande Renato Russo “Não precisa ser perfeito. Pra mim, basta que seja verdadeiro.” E esse era o meu grande sonho.
            Ficava eu lá fantasiando um mundo que poderia, talvez, não acontecer. Eu não sabia se poderia esperar por você, mas esperei. Na verdade, o que eu nunca tive certeza era se você iria me querer um dia. Algumas garotas passaram por mim antes; uma ou duas, talvez, até tinham chamado a minha atenção, mas nunca igual a você.
            Depois de um tempo, aprendi a me acostumar com esse disparo que meu coração dava sempre que ouvia sua voz, mas ainda achava estranha a dificuldade de desviar o olhar enquanto você falava. É engraçado, porque eu achava que estaria preparado para tudo, de terremoto à poesia, para quando, finalmente, te encontraria no meio de toda essa gente sem sal. Você me ensinou a não ter planos, enquanto que o seu era desalinhar as coisas no meu quarto e em mim, para mostrar que amor é também desordem.
Foi você, também, quem mostrou que todos aqueles desencontros da vida e romances mal resolvidos que eu tive fizeram sentido. E não adianta achar que eu vou estar preparado pra isso quando vier, porque não vou. Você apareceu assim, sem aviso e sem ensaio. De repente, eu estava sorrindo e nem sabia o porquê. Só conseguia rir quando me perguntavam se era droga ou coisa do tipo. É, o amor é uma droga. Mas eu não me preocupo com isso.

Jairo Goetz

Memorial

DA CRIANÇA AO PROFESSOR

            Não me lembro muito bem, mas, mesmo antes de frequentar a escola, pegava papel para rabiscar minhas primeiras palavras e livros ilustrados para poder entender o que se dizia, mesmo sem saber ler. Aos meus cinco anos de idade, meus pais matricularam-me na escola da minha comunidade, na qual meu irmão também tinha estudado. Nunca esqueço que fiquei muito feliz e ansioso para ir à escola. Todos os dias, meus colegas me esperavam e íamos juntos, conversando sobre as atividades e brincadeiras que lá realizávamos.
            Quando completei seis anos de idade e fui matriculado na 1ª série (antigo primário), já sabia escrever várias palavras e ler bastante. Também recordo que eu adorava fazer “caligrafia” e “ler” livros de contos. Minha mãe, uma mulher que gosta muito de ler, sempre me incentivou, mas, como morávamos no interior da cidade, a distância e os recursos financeiros dificultavam muito a obtenção de livros para que eu e meu irmão pudéssemos ler. Na 5ª série, na mesma escola, o meu professor, que era muito rígido, principalmente na leitura; solicitava que nós, alunos, escolhêssemos um livro e, após a leitura, fôssemos à frente da turma, para explicar o que havíamos entendido.
No começo, ficava com muita vergonha, mas, hoje em dia, sei que aquela iniciativa foi ótima para a minha desenvoltura, pois foi através disso que hoje consigo falar em público sem nenhuma dificuldade. Outra atitude de que gostava era os “cadernos de perguntas”. Não havia um aluno na classe que não o tivesse. Competíamos para ver quem tinha o caderno com mais perguntas e respostas, pois, assim, tornar-se-ia o mais popular da classe.
Leio por prazer, pelo simples fato de encontrar na leitura uma forma de adquirir conhecimento, abrandar a alma com palavras que têm o poder de aliviar o pensamento. Fui crescendo e estudando, sempre com o intuito de ser alguém na vida. No ano de 2012, resolvi entrar na faculdade e cursar Letras, para assim realizar um dos meus sonhos: o sonho de ser professor, ser professor da escola onde estudei da 5ª série ao 3º ano do Ensino Médio. Sonho esse que já estou realizando, sendo professor de português.
Hoje em dia, trabalho com turmas desde a Educação Infantil ao 3º ano do Ensino Médio. Como tive exemplos de bons professores que sempre me incentivaram a ler e a escrever, tento sempre mostrar aos meus alunos a importância da leitura. Tento mostrar-lhes que tudo o que pudermos ler sempre é bom, pois através das leituras aleatórias, adquirimos gosto pela leitura e assim ter uma boa escrita. Fico muito satisfeito quando, ao relatar um acontecimento da nossa literatura, eles ficam compenetrados no assunto e sempre querem saber mais e mais. Também ao trabalhar com produção de texto, e propor um tema de interesse deles e, ao ler o que foi escrito fico encantado com a imaginação deles e o seu senso crítico, apesar dos erros de ortografia, das redundâncias, entre outras inadequações que, aos poucos, vamos corrigindo.
Sei que tenho pouco tempo de experiência na área, mas sei que tenho muita vontade e gosto muito do que faço. Dessa forma, do mesmo jeito que no passado fui incentivado a ler e a escrever, tenho como objetivo passar aos meus alunos esse mesmo gosto, porque como diz Daniel Pennac; “Ser leitor é ser uma raça diferente dentro da raça humana, não melhor, não mais inteligente, apenas feliz e satisfeita de uma maneira divinamente diferente”.

Jairo Goetz


Crônica

            SEM ASSUNTO

           Muitos escritores queixam-se da falta de assunto. O “branco” que agride o momento de inspiração. A arte de escrever passa a consistir em fazer do problema uma solução: escreve-se sobre o “branco”. Exemplos não faltam, como agora que estou com essa falta de assunto, ou seja, estou com o “branco”.
            Não tenho nenhuma motivação para redigir uma crônica. No entanto, o que me vem à cabeça é esse famoso “vazio”. Eu sei que sou apenas um aluno/professor e que já é muito ser isso. Mas a minha vaidade literária me diz que eu deveria ir mais longe: escrever uma crônica. Porém, já estou percebendo que ser um escritor iniciante é mais difícil do que parece. É preciso ter muito fôlego, muita dedicação, para que a qualidade dos textos apareça.
            A falta de assunto, não vai me impor limites na arte de escrever. O meu domínio literário não admite ambiguidade narrativa. Posso estar escrevendo, no máximo, duas crônicas por ano que serei, além de um aluno/professor, um cronista ou um projeto de cronista, pois minha verdadeira produção literária tem métrica poética.
            Realmente, a falta de assunto deste texto o torna estupidamente lento; podemos até compará-lo à construção de um prédio residencial. A insistência me faz continuar escrevendo lentamente, quase parando. O jeito é empurrar o texto, convencido de que algo está acontecendo. Que o “prédio literário” está sendo construído aos poucos e que a narrativa lerda está encontrando um caminho positivo. Não vou negar que estou escrevendo com muita dificuldade, com uma vontade imensa de largar tudo e apertar a tecla – DELETE – e fugir do problema. Pois, a falta de ideias é profundamente desestimulante.
            Estou vendo a minha pilha de provas e redações para corrigir e continuo escrevendo esta crônica absolutamente desinteressante. Mas estou resolvido a escrevê-la até o fim, por mais que doa, em mim, esta falta de assunto assustador, tão assustador que parece que eu não tenho afinidade nenhuma com a escrita: indignação que me faz até lamentar o dia de hoje e até de pôr um ponto final neste desastre narrativo. Mas como sou teimoso e não admito ser menos que nenhum de meus colegas, continuo escrevendo, mesmo sem ter assunto.
Todos nós nos deparamos com esse tal de “branco” na hora de produzir; e é engraçado como a falta de assunto se desdobra rumo ao nada. E, apesar deste texto ser uma porcaria, ele se impõe categoricamente na imensidão de um fato do cotidiano. Portanto, não há nada a fazer a não ser colocar palavras e mais palavras formando assim uma ideia ou uma quase ideia.
Na falta de assunto, enfim, inventei um texto que fala da necessidade de escrever do escritor, mesmo quando não há assunto em questão. Sem dúvida, é um grande desafio para nós, escritores iniciantes, pois exercita a criação artística do eu-produtor. Não devemos nos abater com a falta de assunto, pois ela é, na verdade, também, um assunto a ser questionado em sala de aula que dará muito pano para a manga. Porém, dou-me por vencido; acaba aqui a minha falta de assunto, ciente de que não faltou esforço para escrevê-la, ciente de que não vale a pena insistir em um texto inexistente.

Jairo Goetz