sexta-feira, 25 de julho de 2014

Crônica

            SEM ASSUNTO

           Muitos escritores queixam-se da falta de assunto. O “branco” que agride o momento de inspiração. A arte de escrever passa a consistir em fazer do problema uma solução: escreve-se sobre o “branco”. Exemplos não faltam, como agora que estou com essa falta de assunto, ou seja, estou com o “branco”.
            Não tenho nenhuma motivação para redigir uma crônica. No entanto, o que me vem à cabeça é esse famoso “vazio”. Eu sei que sou apenas um aluno/professor e que já é muito ser isso. Mas a minha vaidade literária me diz que eu deveria ir mais longe: escrever uma crônica. Porém, já estou percebendo que ser um escritor iniciante é mais difícil do que parece. É preciso ter muito fôlego, muita dedicação, para que a qualidade dos textos apareça.
            A falta de assunto, não vai me impor limites na arte de escrever. O meu domínio literário não admite ambiguidade narrativa. Posso estar escrevendo, no máximo, duas crônicas por ano que serei, além de um aluno/professor, um cronista ou um projeto de cronista, pois minha verdadeira produção literária tem métrica poética.
            Realmente, a falta de assunto deste texto o torna estupidamente lento; podemos até compará-lo à construção de um prédio residencial. A insistência me faz continuar escrevendo lentamente, quase parando. O jeito é empurrar o texto, convencido de que algo está acontecendo. Que o “prédio literário” está sendo construído aos poucos e que a narrativa lerda está encontrando um caminho positivo. Não vou negar que estou escrevendo com muita dificuldade, com uma vontade imensa de largar tudo e apertar a tecla – DELETE – e fugir do problema. Pois, a falta de ideias é profundamente desestimulante.
            Estou vendo a minha pilha de provas e redações para corrigir e continuo escrevendo esta crônica absolutamente desinteressante. Mas estou resolvido a escrevê-la até o fim, por mais que doa, em mim, esta falta de assunto assustador, tão assustador que parece que eu não tenho afinidade nenhuma com a escrita: indignação que me faz até lamentar o dia de hoje e até de pôr um ponto final neste desastre narrativo. Mas como sou teimoso e não admito ser menos que nenhum de meus colegas, continuo escrevendo, mesmo sem ter assunto.
Todos nós nos deparamos com esse tal de “branco” na hora de produzir; e é engraçado como a falta de assunto se desdobra rumo ao nada. E, apesar deste texto ser uma porcaria, ele se impõe categoricamente na imensidão de um fato do cotidiano. Portanto, não há nada a fazer a não ser colocar palavras e mais palavras formando assim uma ideia ou uma quase ideia.
Na falta de assunto, enfim, inventei um texto que fala da necessidade de escrever do escritor, mesmo quando não há assunto em questão. Sem dúvida, é um grande desafio para nós, escritores iniciantes, pois exercita a criação artística do eu-produtor. Não devemos nos abater com a falta de assunto, pois ela é, na verdade, também, um assunto a ser questionado em sala de aula que dará muito pano para a manga. Porém, dou-me por vencido; acaba aqui a minha falta de assunto, ciente de que não faltou esforço para escrevê-la, ciente de que não vale a pena insistir em um texto inexistente.

Jairo Goetz 

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